« O filme Puisque que nous sommes nés , da parceria entre Jean Pierre Duret e Andrea Santana, nos convida à aventura da pobreza no Nordeste do Brasil – na cidade de São Caetano, no Estado de Pernambuco. Nesta incrível fita o narrador principal Cocada nos rouba o fôlego, não apenas por cantar a desesperança, mas sobretudo por cantá-la em prosa afiada. A lente-lâmina da câmara corta sem pressa a realidade de uma região onde nada parece acontecer, onde não há renascimento. Tanto o narrador principal, quanto os demais narradores estão congelados e presos à armadilha atemporal dos que são excluídos e vulneráveis nas sociedades. Cocada e seus camaradas são a franja de um sistema cujo equilíbrio está ancorado na desarmonia; em 2005, mais de 17 milhões de pessoas ou 34,8% da população da Região Nordeste do Brasil viviam na pobreza.
Presos ao circulo vicioso da pobreza, que revela problemas estruturais de longo-prazo, e diante da ignorância da qual têm consciência, Cocada e seus camaradas são tragados pelo vácuo e tornam-se apenas espectadores da mudança em desejo. Lixo, animais, homens e crianças se alimentam em cadeia e o sistema se alimenta deles. O movimento dos veículos que entram e que seguem pelo posto de gasolina, lócus das principais tomadas da fita, é uma boa metáfora da realidade registrada pelo documentário. As transformações pelas quais passaram algumas sociedades e que incidem sobre uma pequena parte dos brasileiros, também passam à margem dos personagens do filme – de quem se flagra o olhar vazio e o desassossego. Mentira e imaginação são os últimos recursos que permitem a sobrevivência desse teatro - que bem poderiam ser personagens de Luigi Pirandello ou de Ariano Suassuna - como revela Cocada em sua última fala. »
Betina Ferraz - economista, natural de Pernambuco
