ENTREVISTA
Jean-Pierre Duret e Andrea Santana
“No Meio do Mundo” é o terceiro filme que vocês realizam no Nordeste do Brasil. Por que a escolha desta região ?
JEAN-PIERRE – Temos filmado sobretudo no Sertão. Naquela imensa extensão de terra queimada, de vegetação seca, de cores ocres, onde as pessoas vivem quase sempre na penúria e na precariedade, e a maioria não possui nada. Para sobreviver nessas condições, elas devem resistir com integridade e esperança. A necessidade de viver naquela terra tão difícil tornou-as extremamente abertas, tolerantes e generosas. Elas têm uma magnífica visão de suas existências, que exprimem com muita poesia. Seus problemas de sobrevivência cotidiana não as tornaram amargas nem lamentadoras. Elas tentam se manter dignas, apesar de tudo.
ANDREA - Nós achamos que no Nordeste poderíamos filmar coisas singulares e ao mesmo tempo universais. E questionar nossa relação com o outro, o outro mais pobre que nós, mas rico de muitas coisas que nós perdemos.
O cinema mostra frequentemente a pobreza do Brasil por meio das favelas. Por que vocês escolheram a zona rural do Nordeste?
ANDREA - O foco do nosso trabalho não é a pobreza, mas a riqueza dos homens e mulheres que vivem na pobreza. Mostrar a pobreza não serve para nada se a gente não enxergar quem são as pessoas que estão escondidas atrás dessa “classificação”. Muito além do fato de serem pobres, elas são cidadãs, são seres humanos. Nós tentamos filmar e colocar em evidência tudo o que é subjacente, que está além das aparências, que é o que elas têm de belo.
JEAN-PIERRE – Também é verdade que no Nordeste existe ainda uma forte ligação com a terra. No filme, os meninos se dividem entre toda uma cultura ligada à terra que vem de seus avós, de seus pais, e a atração pelo que as grandes cidades podem oferecer. Ainda não existe o universo da favela como nas grandes metrópoles.
Como foi que vocês encontraram Cocada e Nego, “heróis” do filme?
ANDREA - Quando voltamos ao Brasil para mostrar o nosso penúltimo filme, “O Sonho de São Paulo”, encontramos vários meninos à espreita num posto de gasolina do interior do Pernambuco. Um deles, o irmão mais velho de Nego, nos disse no meio de uma conversa: “Não tenho nada, só tenho minha vida”. Essa forma de falar da vida, extremamente madura, nos tocou bastante. O que é que leva um menino de 14 anos a ter tal consciência de sua presença no mundo, da nudez em que ele vive? Nós também só temos nossa vida, mas na maioria das vezes escondemos isto de nós mesmos.
Depois de escrever o projeto e conseguir financiamento, voltamos àquele posto de gasolina para tentar construir o filme à partir dessas palavras.
Rapidamente nós simpatizamos com Nego e Cocada. Foi uma escolha recíproca. Nós os escolhemos, e eles nos escolheram.
Por que filmar num posto de gasolina?
ANDREA – A razão principal foi o encontro que tivemos com aquele menino e com suas palavras num impressionante posto de gasolina, um lugar extremamente “cinematográfico”. Também porque o posto de gasolina é um cenário representativo do Brasil do interior, um país onde tudo transita pelas estradas. Muitas vezes, durante os 25 mil quilômetros que percorremos para as filmagens de “O Sonho de São Paulo”, nos sentimos atraídos por esses inúmeros postos de gasolina onde o Brasil dos ricos está ao lado do Brasil dos pobres sem realmente se encontrarem.
JEAN-PIERRE - É um lugar atraente, uma espécie de Eldorado para esses meninos e é também um espaço de questionamento, onde eles constróem seus sonhos, compreendem a dimensão da pobreza em que vivem, alimentam inquietudes e medos.
Uma trama narrativa, protagonistas... A construção de “No Meio do Mundo” se aproxima muito da ficção, diferentemente de “Romances de terra e Água” e “O Sonho de São Paulo” ; o que é realidade e o que é ficção no filme?
JEAN-PIERRE - “No Meio do Mundo” não é uma ficção. Houve uma progressão no nosso trabalho de um filme a outro, na forma e no conteúdo. Neste filme, queríamos nos aproximar o máximo possível da intimidade das pessoas filmadas, para que tudo fosse percebido na força e na energia vital delas. É por isso que não fizemos nenhuma entrevista, nós filmamos situações de vida, na intenção de transformar o nosso olhar, de ir além dos clichês da miséria que nos embaraça a todos nós e para que possamos sentir esse outro como se ligado a nós através do mesmo tecido humano.
ANDREA - Tudo é real. É o fato de filmarmos unicamente situações de vida provoca uma proximidade que faz com que cada um sinta o filme a partir da sua própria História, o que quebra a barreira que o separa das pessoas filmadas. Os espectadores levam com eles, por muito tempo, a imagem dessas pessoas. Uma imagem próxima e viva.
O que é extraordinário é a forma como as pessoas se exprimem, como analisam a suas próprias vidas. Os diálogos no filme são incríveis, como, por exemplo, quando o Cocada discute com um caminhoneiro.
Como vocês fizeram para filmar discussões tão fortes e de forma tão natural ?
ANDREA – Vivemos seis meses com esses meninos e os adultos que vivem em torno deles, naquele posto de gasolina e na sua vizinhança, um território concentrado em cinco quilômetros quadrados. É necessário tempo para que uma confiança recíproca se instale.
Fazer um filme é um trabalho onde cada um deve se dar para tentar atravessar o espelho, ir além do superficial. Eles compreendem isso rápido. Muito do que eles sentem fica trancado por causa do desprezo que suportam cotidianamente. Eles não são nada diante do olhar dos outros, isso é o seu maior sofrimento, uma dor que calam no peito.
Juntos, nós tentamos nos liberar de nossos medos, para que saibamos, ao final, um pouco melhor quem somos nós e quem são eles. Sem tal compartilhamento, não existe filme que valha a pena.
JEAN-PIERRE - Um certo número de espectadores duvida das palavras dos meninos. “Como esses meninos podem falar assim?” “Vocês escreveram o texto deles?”
Não, de jeito nenhum. É claro que tais palavras não saíram no primeiro encontro. Foi necessário conviver em momentos difíceis. Foi necessário fazer com que eles parassem um pouco e olhassem para a sua própria vida. Um confronto necessário que lhes permitiu externar seus sentimentos.
A prova da confiança está nessa intimidade à qual eles às vezes se entregam. O que fervilha neles é a marca de uma humanidade que nos é comum, que nos liga a todos e que é indispensável.
Como valorizar essas pessoas sem estetizar a miséria ?
JEAN-PIERRE - Colocar em evidência as pessoas não quer dizer somente lhes dar uma imagem bela e cheia de grandeza. Filmar no dia a dia as coisas impuras, que vão contra a idealização, não é fácil. É preciso estar atento para desvelar as contradições. Elas existem no filme. A mãe de Nego, por exemplo, é uma personagem assimétrica. Ela briga com os meninos, castiga-os . É uma bela personagem, mas que em geral é bem menos aceita. Justamente porque um pobre não deveria ter tal imagem. Na realidade, ela educa os seus filhos bem melhor do que muitos de nós, porque ela sabe muito bem a vida brutal com a qual eles vão se confrontar, e é preciso que ela os prepare. Seus filhos, mesmo sendo pobres, são educados.
E o filme não conseguiu mostrar nem a metade da violência que esses meninos, essas pessoas, suportam.
ANDREA - As pessoas que nós filmamos estão constantemente magoadas, humilhadas, atingidas no que existe de mais fundamental no ser humano: o respeito. A partir do momento que decidimos filmá-las nós tínhamos o dever absoluto de respeitar e de valorizar seus rostos e suas vozes, que são a sua expressão maior. Seria estética se nós tentássemos torná-las belas além da beleza interior, que é exatamente o que tentamos mostrar.
A câmera focaliza frequentemente os discursos do Presidente Lula e dos candidatos em campanha eleitoral. Que mensagem vocês quiseram passar com isso ?
ANDREA - Nosso objetivo era confrontar as palavras e reflexões das pessoas que filmamos com a linguagem dos políticos, com o discurso de Lula, filho da região, em campanha eleitoral para se reeleger Presidente da República.
Vocês pensam que o filme pode transformar mentalidades ?
ANDREA - Trabalhamos para que o filme coloque em evidência pessoas muito pobres e que têm uma consciência e uma inteligência de percepção extrema.
Nós vivemos num mundo cada vez mais dividido, onde as pessoas são catalogadas como: “os oprimidos”, “os excluídos”, “os que estão à margem de tudo”, “os abandonados”, “os esquecidos”… Muitos pensam que tendo pronunciado essas palavras todas esgotaram a questão. É uma armadilha.
A realidade da pobreza é manipulada e deturpada constantemente pela mídia. Cada vez mais o mundo é percebido como é mostrado na televisão. E as imagens que são mostradas acabam nutrindo uma amnésia instantânea que cada vez mais provoca aversão, primeiramente, depois um cansaço, e por fim uma bela de uma indiferença.
É por isso que tentamos filmar o que nos aproxima das pessoas pobres, o que nos faz senti-las como irmãs. Tentamos evitar os clichês, filmando a sutileza e a complexidade da vida delas.
JEAN-PIERRE - O escritor inglês John Berger, num de seus últimos livros, sugere que atualmente não sabemos como podemos agir sobre o mundo como ele é, um mundo profundamente injusto. Temos o dever de continuar a hospedar a esperança, a nossa e a deles.
É isto que tentamos fazer através dos nossos filmes. E para isso é necessário tentar conhecer melhor essas pessoas, intercambiar com elas, não perder os laços que nos une. Se não existir uma relação de troca em pé de igualdade, nenhuma transformação será possível.
Vocês continuam em contato com Nego e Cocada ?
JEAN-PIERRE - É claro que continuamos em contato com os dois. Quando o filme ficou pronto a primeira coisa que nós fizemos foi voltar e lhes mostrar o filme.
Eles sabem que a história não se acabou no filme. Nós vamos estar perto deles toda a nossa vida, assim como de todas as pessoas que filmamos até hoje.
Quando vemos os três filmes de vocês, observamos uma certa continuidade, como numa trilogia. É assim que vocês consideram os três filmes que fizeram ?
ANDREA - O primeiro filme “Romances de Terra e Água” (2001), conta a vida dos pequenos agricultores pobres (diaristas da terra) da Região do Cariri, no Estado do Ceará. Apesar das difíceis condições de subsistência, eles mantêm com muita força sua rica tradição oral, seus talentos de poeta, a paixão pela terra. Eles falam de um mundo ideal, de uma comunidade humana onde cada um respeita as necessidades vitais do outro e onde a cultura deles poderia existir em liberdade.
O segundo filme, “O Sonho de São Paulo” (2005), segue o percurso de um jovem, filho de um desses pequenos agricultores diaristas da terra do Estado do Ceará, que migra para São Paulo, a grande cidade sedutora, para se juntar a todos aqueles que partiram para viver longe da “terra amada”. O sonho de um mundo tranqüilo e feliz, onde o céu e a terra seriam de todos, é quebrado. Os filhos dos pequenos agricultores não podem mais aderir a essa esperança tão antiga. É um road movie através de 3.500 quilômetros de sonhos dos pobres em busca de conquistar uma vida melhor.
Com “No Meio do Mundo” (2008), os três filmes se complementam, como numa trilogia. Cada um deles aumenta e aprofunda a complexidade dessas vidas filmadas.
* Trechos de entrevistas publicadas originalmente em francês no site « Evene.com » (por Laurence Gramard), no Jornal suiço « Le Temps » (por Firouz-Elisabeth Pillet) e na revista « Positif » (por Mathieu Darras).

