Já que nascemos

Já que nascemos

un film de Jean-Pierre Duret et Andrea Santana

estréia (Brasil)
4 de Junho 2010

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O SONHO DE SÃO PAULO

(Titulo original: Le Rêve de São Paulo)

Um filme de Jean-Pierre Duret e Andrea Santana
Com a participação do fotógrafo Tiago Santana

Brasil, 2004, 100 minutes
Video - 4/3 - Cor

 

 

 




Abertura

Um homem sobre uma bicicleta, um pescador, nos conta esta pequena história, como parábola ou painel indicativo:

« Eu já tenho visto dizer: “eu queria ser pobre ao menos uns minutos pra ver que vida é a de pobre”… Mas só sabe quem vive dentro. »

Sinopse

Há muitas décadas, movidos por um veemente desejo de viver, os camponeses do Nordeste do Brasil emigram em direção a São Paulo, cidade miragem de um sonho comum e essencial a cada pobre da terra: comer, alimentar sua família, ser reconhecido como alguém.

Há cinqüenta anos, este foi também o sonho de um menino que veio a tornar-se célebre, Luís Inácio da Silva – Lula – Presidente do Brasil a partir de 1º de janeiro de 2003.

De nossa parte, nós percorremos com José, 18 anos, os três mil quilômetros de estrada que separam a sua pequena cidade natal, no Ceara, de São Paulo, esta imensa lanterna mágica que contém na sua barriga de baleia mais de oito milhões de nordestinos. O sonho de José e de todos os que encontramos é a matéria do filme, seu esqueleto e seu coração. Diante do caos em que vivem, o único dom do futuro é este desejo de vida.

O destino

Quebradores de pedra, pescadores de caranguejo, crianças de beira de estrada, camelôs, catadores de lixo, trabalhadores exilados em usinas cinzentas, todos esses personagens encontrados na estrada ou nas cidades negam-se a ficar imóveis diante da fatalidade ou da fome quase quotidiana ou da infatigável má sorte que ninguém virá atenuar. Eles não param de refletir numa forma de sobreviver melhor e estudam cada situação, tiram proveito de cada aspereza que lhes permita escalar um pouco mais alto e penetrar nos interstícios da vida.

No Brasil, mais de cinqüenta e dois milhões de pessoas vivem com menos de seis reais por dia. O sonho permite viver e acreditar que um dia será possível voltar ao lugar da infância, à terra onde nasceram, cuja memória guarda alguns momentos de luz.

Diário de viagem

Houve uma noite e houve um dia.

No Nordeste do Brasil, tem-se o sentimento do primeiro dia da criação do mundo, na paisagem imensa e árida, onde a gente bebe o céu, e parece mesmo tocá-lo. São mais de oitocentos mil quilômetros quadrados onde sobrevivem vários milhões de habitantes. Cada um deles, desde o nascimento, sabe o que é a fome.

Este é um filme sem narração. Os pobres contam suas próprias histórias com veemência, força e visão ampla. Basta que alguém se aproxime, se identifique e diga por que está ali. O que mais lhes dói é não serem vistos, ouvidos… não serem nada aos olhos dos outros, nada mais do que sombras transparentes; é a pior das injustiças, uma dor que calam no peito.

Eles fazem parte de uma população quase cativa, (suas escolhas diante da vida são muito escassas). É preciso ter tempo de olhar seus rostos, deixar-se tocar por sua voz para compreender a visão que eles têm de suas próprias condições, o que eles fazem desta compreensão da vida e em que ela os ajuda a resistir a tudo o que poderia fazê-los decair. Fazer um filme com eles é se enriquecer da experiência e da fala de cada um, num conhecimento partilhado da “arte de viver”.

Nosso mundo

Se o mundo continuar tal qual ele é, em breve não será mais possível filmar o que filmamos. A vergonha nos cobrirá apesar do nosso olhar benevolente e íntegro (tanto quanto possível) que lhes dispensamos. Por esta razão, tentamos contar nossos personagens de modo a que eles se tornem parte de nossa vida e que as fotos em preto e branco inseridas ao longo do filme sejam como um álbum de família, comum a eles e a nós, a ser folheado conjuntamente. As fotos são o espírito, além do que é dito, onde flutua a alma daqueles que não perdem a esperança.

Nós somos todos deste mesmo mundo.

Jean-Pierre Duret e Andrea Santana

 


 


galeria de fotos

 


 

Anos atrás, Andrea e Jean Pierre, nos agraciaram com o filme: " Romance de Terra e Água ". Ficamos embevecidos com a linha poética que envolve todo o filme numa costura de rara sensibilidade; identificados com a proposta política, que sempre foi a nossa bandeira desde que a JUC nos fez " herdeiros do drama humano "; envergonhados, por sermos cúmplices de uma realidade tão cruel e tão próxima.

Agora, vem-nos outro presente: " O Sonho de São Paulo ". Mesmo comprometimento político, mesmas denúncias contundentes, mesma ternura poética. Mas, sob outros ângulos, diferentes ( ou iguais?), desta vez colocando como contra ponto a grande metrópole devoradora de homens: São Paulo. Os protagonistas, são de novo nordestinos, mas os seus opressores são mais evidentes, mais escandalizadamente perversos. E como Jean Pierre e Andrea, conseguiram escancarar os corações de seus entrevistados, arrancando depoimentos líricos, nostálgicos, magoados (raramente revoltados) ternos, compassivos?
A luta de classe, a exploração capitalista, a incipiente organização popular, a tímida consciência de classe, perpassam todo o desenrolar do filme de maneira sutil, mas arrasadora e sem nenhuma conotação panfletária.

O Cantor pungente de " Sereia " lembra o Nordeste suplicante. O catador de lixo que sonhava em ter um chuveiro no seu banheiro para sentir-se gente, nos dilacera os sentimentos. Mas, apesar de tudo, a todos os personagens que desfilaram sob nossos olhos marejados (impossível resistir ) não lhes falta a Esperança e nos lembra Fernando Pessoa.

" A quem sonha de dia e sonha de noite, sabendo todo o sonho vão,
Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo e a ter coração "

A trilha sonora é perfeita, parece ecos doloridos dos nossos navios negreiros e das senzalas! Mas também dos brincantes, dos mateus, dos papangús, da alegria medrosa dos desdentados.

Durante uma hora e 40 minutos, vamos nos envolvendo, nós espectadores, com aquela atmosfera imaterial e concreta ao mesmo tempo. Densa e volátil, encantadora e castradora.

Agora, nos perguntamos: vamos nos abater pelo sentimento de derrota? Qual o tamanho dos nossos sonhos? E responderemos com Darci Ribeiro:

" Nada tem tamanho ( nem as derrotas, nem os sonhos ). O nosso sonho de ontem, é de hoje e é de quanto eu durar. Eu tenho certeza que nós fizemos um país bonito, temos é que enforcar os canhalhas. "

Andrea, Jean Pierre, Tiago: este filme é um instrumento para" enforcar os canalhas "

P a r a b e n s !!!

Ermengarda Santana - Assistente Social – Fortaleza-Ce

 


 

Documentos

Ficha técnica (PDF, 40 kB)

Itinerário do filme (PDF, 46 kB)

 

Os dois filmes (Romances de terra e água et O sonho de  São Paulo) foram publicados em um DVD pela editora Montparnasse.
Para comprar o DVD : www.editionsmontparnasse.fr