ROMANCES DE TERRA E ÁGUA
(título original: Romances de Terre et d’Eau)
um filme de Jean-Pierre Duret e Andrea Santana
Brasil, 2001, 78 minutos
35 mm - 4/3 – Cor – Dolby
Vídeo - 4/3 – Cor, 52 minutos (versão TV)

Os pequenos agricultores pobres do mundo se parecem. A cultura, a religião, as estruturas políticas e familiares mudam, mas a relação com a terra e com a vida é a mesma, feita de pragmatismo e de obstinação que se fundem sobre um real e profundo apego à terra, oriundo do conhecimento ancestral que eles têm dela.
É preciso resistir, com todos os meios, para não desaparecer, para sobreviver economicamente, para manter a cultura viva e poder transmiti-la a seus filhos.
As tradições e a cultura só se renovam em condições econômicas onde as pessoas possam manter sua existência e mesmo ter a esperança de melhorá-la, onde possam transmitir aos filhos seus valores, seus conceitos de vida. Nesta condição, a cultura mantém-se viva, fortalecida, regenerada pelos jovens que lhe dão e reencontram seu sentido. De outro modo, a cultura se esgota, seca, de seu sangue e ficam apenas os espantalhos,as aparências enganosas, que exibimos nos museus com boa consciência e fatalismo.
Frequentemente, o discurso cultural se interessa somente pelo folclore, pelas tradições que vão desaparecer: ele esquece esta grande experiência de vida que os pequenos agricultores possuem no mais profundo deles mesmos e negligencia as condições econômicas responsaveis pela degradação das comunidades rurais.
A água, a terra, o céu, os animais, as plantas, as árvores frutíferas, as sementes, as ferramentas que quebram, as doenças, a chuva, o sol, a seca e as inundações cíclicas, o habitual egoísmo do proprietário, todas essas coisas delimitam o preço da vida, a condição da vida. É preciso estar atento à cada um desses elementos para conseguir fazer viver sua família e manter seu direito de existência. É o caso do Nordeste do Brasil, onde o pequeno agricultor (na verdade um diarista da terra) não tem direito a nenhum direito.
Ele depende da boa vontade daqueles que possuem a terra em que ele trabalha e nenhum recurso diante da lei lhe é permitido em caso de litígio, por razões de falta de dinheiro, influências espúrias e possíveis ameaças de morte. Atrás de suas vidas, cujo destino parece traçado com antecedência, os pequenos agricultores do sertão se batem com obstinação contra a lenta asfixia econômica que os leva ao êxodo nas periferias das cidades.
Não estamos mais num mundo a duas velocidades mas num mundo a dez,
a cem velocidades. Aqui e agora, estamos no coração ardente da mundialização, no seu caldeirão ativo. Os pequenos agricultores fazem parte de uma população já cativa, para quem as possibilidades de escolha diante da vida são pequenas. Dentro desta fornalha, eles conseguem preservar um clarão, uma fragilidade, um sorriso, uma esperança.
Para esses pequenos agricultores de origem indígena , a « roça », que é o local onde eles cultivam as plantas, os legumes e o arroz necessários para assegurar o sustento de uma família, poderia ser o paraíso sobre a terra, se esta terra lhes pertencesse, se eles pudessem simplesmente viver dela. É o lugar onde todos os mitos nasceram e estão por nascer, e que eles se esforçam em manter através da poesia, da música, das criações à base de argila, das máscaras e das danças.
Através da intensidade de suas palavras, eles manifestam uma lucidez plena de humor que é o sinal mais radiacal de sua condição de ser humano.
Jean-Pierre Duret e Andrea Santana
Da cidade e do campo
Sou um ser urbano por excelência. Constatar isso não me torna indiferente à realidade rural, especialmente o infortúnio da população campesina
Habituado que estou a discutir as questões urbanas, devo admitir que a cidade exerce em mim um verdadeiro fascínio. Luzes, agitação, movimento, burburinho, corre-corre, nada disso me incomoda. Sou um ser urbano por excelência. Constatar isso, entretanto, não me torna indiferente à realidade rural, especialmente o infortúnio da população campesina, o que revela as questões sociais imbricadas na crescente necessidade de uma integral reforma agrária, formulação e aplicação de políticas públicas voltadas ao homem do campo - pequenos proprietários e trabalhadores rurais.
Esse preâmbulo todo é para falar de um belíssimo documentário, que tive oportunidade de assistir, intitulado Romance de Terra e Água, de Jean-Pierre Duret e Andréa Santana. Os autores esbanjaram sensibilidade ao lidar com o tema, tratando com sabedoria questões ligadas às dificuldades de acesso à terra, escassez de água, família, numa perspectiva positiva, onde a estética da pobreza é apresentada com dignidade.
Pessoas simples, lavradores, mulheres artesãs, personagens criativos, atados às agruras de um cotidiano repetitivo, marcados por um calendário ditado por safras e festas religiosas, são aí valorizados. O cerne desse modo de vida é apreendido pelos autores do filme com ternura e bom senso. É meritória a capacidade de discernir o que deve ser explicitado como denúncia, daquilo que é inerente a um contexto cultural.
Enfocam a afetividade em gestos e movimentos. Cenas de carinho não verbalizadas permeiam o filme, permitindo ao espectador perceber a meiguice de um olhar, a ingenuidade de um sorriso e a ternura de um toque de mãos. Seu tempo é lento. Tempo do acontecimento, do cotidiano, contido em movimentos simples, nas marcas de rostos curtidos pelos anos, pelo trabalho árduo. O filme é uma ode ao respeito e à dignidade
Jean-Pierre Duret e Andréa Santana enquadram imagens e inserem seus movimentos na dinâmica do cotidiano dos personagens ajustando-se às suas temporalidades, no enraizamento de suas estruturas. Essa captura do tempo e do espaço, com belos planos, consegue plasmar esse tempo lento do acontecimento num tempo mais lento ainda, que denuncia as permanências que submetem esses trabalhadores rurais a um tempo remoto, já esquecido noutras áreas do Ceará que experimentaram a modernidade. Os perfis urbanos e rápidas visitas à feira registram esse choque temporal. Indiferentes às teorizações, os personagens transmitem sua tranqüilidade, falam, dançam, exploram seus valores, suas crenças. As crianças lêem, brincam, são verdadeiramente infantis, soltas.
O documentário cumpre sua função ao explorar a cultura do Cariri, a variedade do artesanato, a arte popular, a poesia, o folclore. As manifestações de festas e folguedos populares, como as do Pau da Bandeira e do Reisado, estão presentes no filme, consagrando espontaneidade e beleza.
A pobreza material, a falta de condições, a escassez de infra-estrutura e de equipamentos, evidenciam as precárias condições de vida dos personagens do filme, mas, em nenhum momento, permitem comiseração. Rostos cansados, puros, marcados pelo tempo constatam a singeleza de suas vidas, contrastam com a grandeza e beleza da paisagem. Terra e água estão contidas nas paragens escolhidas pelos autores. A direção insinua um percurso onde o caminhar desse povo sofrido é colocado como estações que separam o remanso perseguido - terra e água, condições mínimas para que a questão agrária, seja realizada. O filme é ótimo! Que outros, como eu, tenham oportunidade de vê-lo.
José Borzacchiello da Silva , geógrafo, professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Documentos
Ficha técnica (PDF, 49 kB)
Itinerário do filme (PDF, 59 kB)
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Os dois filmes (Romances de terra e água et O sonho de São Paulo) foram publicados em um DVD pela editora Montparnasse. Para comprar o DVD : www.editionsmontparnasse.fr |


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